- "Que bela evolução para o caos" -Disse-me ele,
- "És bom em contradições..." - Fiz uma pausa e suspirei - "diria até que és o profeta das contradições."
Respondi quase alheio a ele próprio e à afirmação que fizera e assim me mantive, ignorando o ar petulante e provocador que me fazia.
Fixei o alcatrão e não tirei os olhos da lista negra e reluzente que tinha pela frente.
- "Tens dúvidas?" - Insitiu ele em tom trocista,
- "Não, até porque a tua vida tem para ai evoluido" - respondi-lhe na mesma moeda, continuando a evitar-lhe o olhar que sentia, irritantemente, fixo em mim,
- "O que queres insinuar?" Gritou ele, apontando o seu dedo indicador à ponta do meu nariz.
Dei-lhe uma palmada seca e rápida no dedo, afastando a sua mão como um pêndulo e que retirou, por instantes, o sorriso sarcástico e irónico que mantinha desde que entrara no carro.
-"Nada insinuo que não tenha já experimentado" - disse-lhe, olhando-o de soslaio enquanto ele se aninhava confortavelmente no banco de tecido já gasto. Virou-se num impulso para o lado da janela fria do Ford de 1980 que eu guiava, enconstanto a testa ao vidro húmido e molhado.
- "A minha insinuação esta fundamentada na vida que levas" - Insisti, verificando, vitoriosamente, que o tinha finalmente magoado e calado
-"Mas diz-me, tiraste o dia para me desmoralizar hoje, foi?" - rematei eu,
- "Desmoralizar? Porquê?" - o ar quente que soltaram as suas palavras, encheram com uma nuvem de particulas de àgua o vidro do carro, dando a ideia de que o ar era cada vez mais gelado e rarefeito.
- "Parece-me que tens a ideia que a minha vida é desorganizada e desgovernada" - respondi-lhe num tom inquisitório mas esperando ouvir uma afirmação contrária.
Nada ele respondeu
- "Evoluis tu também para o caos" - rematei ironicamente.
- "Caminho para a morte" - suspirou ele, dando pequenas cabeçadas no vidro cada vez mais engordorado do Ford.
- "Ui, já não gostas de viver, é?" - Ironizava e gozava o momento de decadência psicológica dele.
- "Amo a vida acima de tudo!" - Ele voltou a recostar-se no banco cinza escuro, que tinha mais de gasto do que cor.
- "E pensas já na morte?" - A conversa começava a tomar contornos filosóficos e até sérios.
- "E que mais temos de certo?" - Os olhos dele fixavam-se nos limpa-brisas que entretanto tive de ligar pela chuva que tinha começado a cair e que parecia entrar em crescendo como uma sinfonia de Beethoven parecendo estar cada vez mais próxima do climax.
- "Pareces os velhos a falar" - sorri-lhe eu tentando animar o ambiente.
O velho Ford seguia vagarosamente pelas ruas mal iluminadas mantendo uma luta desigual com os temiveis buracos no alcatrão e com a chuva grossa e rápida que agora batia na sua chapa magoada . À beira da estrada os postes de iluminação pareciam lutar entre si para se saber qual deles conseguiria estar mais de 2 segundos sem desligar. A cidade parecia deserta. Olhei para o relógio e vi que já eram 02h45 da manhã. Ele continuava calado de lábios firmemente fechados e de olhos arregalados para o infinito como se o infinito estivesse numa gota de agua da chuva. Assim ficámos durante breves minutos até que decidi relançar a conversa:
- "Achas que a morte é certa?".
Não respondeu. E eu nada disse. Continuei agarrado ao volante com os olhar fixo nas listas brancas que agora me guiavam pela estrada inundada. Pensei na situação terrivel que seria ter agora um furo e ter que muda-lo sobre o diluvio que caia lá fora, ainda para mais tinha quase a certeza que não tinha pneu sobressalente, o que anulava o meu primeiro pensamento negativo mas trazia uma ainda pior, que seria não chegar para onde me dirigia. Subitamente, fui interrompido com um sussuro:
- "Já chegamos?"
- "Deve faltar pouco, penso que é agora aqui à direita!"- respondi-lhe.
Esta era a conversa mais cordial que tinhamos tido desde que nos encontrámos cedo nessa noite no meu bar favorito e onde tinha bebido um pouco mais que aminha conta, em honra de mais uma derrota do clube do meu coração.
- "Será que ela está a nossa espera?"
A sua pergunta provocou-me um calafrio, limpei a gota de suor que me escorria da testa, apercebendo-me pela primeira vez dessa noite para onde ia e do que iria fazer quando lá chegasse.
-"À minha espera!" Respondi-lhe eu secamente,
-"Sim, à tua espera!" Concordou ele, carregando violentamente as palavras que agora eram facas a trespassarem-me de um lado ao outro.